O sonho de passar para a UFRJ e a realidade da universidade pública

minerva-588140_1280Eu me lembro como se fosse hoje aquele telefonema de uma amiga dizendo que meu nome estava lá, entre os classificados.

Não sei se vocês conseguem imaginar o que isso representava depois de um ano inteirinho de pré-vestibular, muitos meses estudando mais de dez horas por dia, maratona de simulados, ausente das reuniões de família, e quase esquecendo que tinha namorado…rsrs. Eu estava mentalmente esgotada, parecendo a “capa do Batman”, como diria meu pai, já que cheguei a pesar 49 Kg, e sem esperanças de ser classificada.

Naquela época  (não que faça tanto tempo assim), o acesso à internet não era tão “facilitado” como hoje e eu dependia de amigos para verem os resultados das provas. Nesse dia, meu pai consertava nosso telefone de casa e eu estava sem celular, ou seja, incomunicável. Foi ele terminar os reparos e o telefone tocou, para minha sorte.

estudarNão sabia se chorava ou se corria para agilizar as documentações. Meu pai também ficou sem ação. Corremos para buscar histórico, ir ao cartório e no dia seguinte eu estava fazendo aquela que seria a primeira de muitas “viagens” à Ilha do Fundão.

Nas primeiras semanas, o cansaço da “viagem” era tanto que eu chegava em casa e dormia até o dia seguinte, acordando cedo para recomeçar a maratona. Mas, nunca reclamei, pois eu estava na Universidade Federal do Rio de Janeiro ou apenas UFRJ, era assim que falava mesmo! E durante os quatro anos de graduação eu me lembrava do início, quando ficava desesperada, perdida naqueles “imensos” corredores, era assim que eu os via.

E durante esses  48 meses, o meu encantamento e aquela sensação de “Meu Deus, eu estou na UFRJ”, foram os mesmos, não foram abalados nem mesmo com a notícia da classificação também para a UERJ e Unirio. Até porque fui amarrada por laços de amizade que duram até hoje e são bem firmes. Não é mesmo Rê, Paula e Kenia?!

traffic-671399_1280Mesmo com todas as turbulências e dificuldades de um curso de graduação, nos mantivemos firmes e fortes, uma apoiando a outra. Foram muitas as amizades que formamos, e os sonhos construídos dentro daquela tão idealizada universidade.

Minha nossa!!! Dez anos se passaram, e eu confesso para vocês que o encantamento já não é tão grande assim. Talvez por hoje ter um pouco mais de conhecimento sobre a realidade da nossa universidade pública, a desilusão agora faz parte do dia a dia. Percorrer os corredores abandonados, ver o mobiliário sucateado e os recursos se escasseando…

É chato ter uma boa ideia em mãos, estar com a vontade e disponibilidade para trabalhar, encontrar pessoas que te apoiam e ter que lidar com a possibilidade de, de repente, não conseguir colocar em prática devido a inúmeras questões que fogem à nossa alçada. Quantas vezes temos que “tirar leite de pedra” para conseguir concretizar um projeto. Se o problema fosse algo isolado, a solução poderia ser mais fácil. Porém, o pior é que não é só comigo. Vejo muitos colegas a minha volta em situações semelhantes. É complicado.

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O sentimento não chega a ser de frustração porque, apesar do descaso, vamos caminhando. Está certo que a passos de tartaruga, infelizmente. Com certeza sinto decepção, por ter esperado muito mais da universidade, por querer fazer muito mais pela instituição. Além disso, sinto-me impotente e limitada diante da falta de investimentos.

Contudo, o lado bom é que exercitamos a nossa criatividade e versatilidade para encontrar um meio de fazer as coisas acontecerem. Procuramos por colaborações que sempre nos enriquecem profissional e pessoalmente. Pena que não seja regra encontrarmos alguém disposto a ajudar e compartilhar conhecimento. Parece contraditório que isso ocorra em uma universidade, mas sim, isso acontece aos montes!

business-world-463338_1280Em meio ao caos científico, em que muitas vezes me vejo, até as amizades ficam mais especiais, porque precisamos mais uns dos outros para suportar e superar as intercorrências do caminho. Perdi a conta de quantas vezes paramos os experimentos e fizemos a nossa famosa terapia em grupo, bem ali, no meio do laboratório! Se saímos com os problemas resolvidos? Pouco provável, mas sem dúvidas saímos sempre com mais força para continuar, para tentar de novo, para buscar ajuda.

Acho que isso tudo acaba me motivando a quebrar minha cabeça até esgotar todas as possibilidades para colocar minhas ideias em prática. Aquela coisa de ” quem quer fazer arruma um jeito” sabe?! Afinal, não importa o que encontramos no caminho, temos que continuar caminhando. Como muito sabiamente dizia meu querido bisavô, que era analfabeto: “viver é dar um jeito“.

E assim vou vivendo, torcendo e tentando colaborar para que a minha e nossa UFRJ, e todas as outras universidades públicas do país saiam do buraco!

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2 comentários sobre “O sonho de passar para a UFRJ e a realidade da universidade pública

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